O Homem que Armou o Mundo
"Continuo a fazer a mim mesmo a mesma pergunta. Se o meu fuzil tirou a vida a pessoas, será que eu... sou o culpado pela morte delas?"
Projetou a AK-47, a arma mais usada da história. Originalmente destinada à defesa de sua pátria, tornou-se a arma preferida de terroristas, crianças-soldados e ditadores.
Mikhail Kalashnikov não se propôs a construir um instrumento de terror global. Como um jovem comandante de tanque soviético na Segunda Guerra Mundial, ele foi gravemente ferido durante a Batalha de Bryansk em 1941. Enquanto se recuperava em uma cama de hospital, ele ouvia seus companheiros soldados reclamarem amargamente sobre a falta de confiabilidade de suas armas em comparação com os fuzis alemães superiores. Impulsionado pelo patriotismo e pelo desejo de proteger sua pátria, Kalashnikov ficou obcecado em projetar uma arma que fosse simples, robusta e confiável. Ele queria forjar um escudo para seus camaradas, uma ferramenta para defender seu lar dos invasores.
Ele teve sucesso até demais. A Avtomat Kalashnikova modelo 1947, ou AK-47, era uma obra-prima de engenharia letal. Era incrivelmente barata de produzir, virtualmente imune à lama, areia e água, e simples o suficiente para ser desmontada em campo por uma criança — o que é exatamente quem muitas vezes acabava por usá-la. Durante a Guerra Fria, a União Soviética exportou milhões desses fuzis para armar movimentos revolucionários em todo o mundo. Logo, a arma escapou completamente do controle do Estado. Inundou os mercados negros do globo, tornando-se o símbolo onipresente de insurgência, terrorismo e violência de gangues. Kalashnikov observou com horror crescente enquanto sua invenção, destinada à defesa nacional, era usada para massacrar milhões em vários continentes.
Por décadas, Kalashnikov manteve uma fachada pública estoica, afirmando a famosa frase de que "dormia profundamente" porque criou a arma para defesa, culpando os políticos por como ela era usada. No entanto, o terrível e sangrento preço de sua criação corroía silenciosamente sua consciência. O homem que havia recebido as maiores honrarias da União Soviética se viu assombrado pelos rostos daqueles que pereceram na ponta do cano que ele projetou. A constatação de que seu nome seria para sempre sinônimo de morte e destruição tornou-se um fardo esmagador.
Em 2012, poucos meses antes de sua morte aos 94 anos, a fachada finalmente ruiu. Em uma reviravolta surpreendente e profundamente pessoal, Kalashnikov, criado em um estado oficialmente ateu, escreveu uma carta manuscrita desesperada ao chefe da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca Kirill. Nela, ele desnudou sua alma: "A dor em minha alma é insuportável. Continuo a fazer a mim mesmo a mesma pergunta insolúvel: Se o meu fuzil de assalto tirou a vida a pessoas, isso significa que eu, Mikhail Kalashnikov, de noventa e três anos de idade, filho de camponês, cristão ortodoxo por fé, sou responsável pela morte das pessoas?" Sua história é um testemunho trágico das consequências não intencionais da criação, e da verdade excruciante de que mesmo as intenções mais patrióticas podem pavimentar o caminho para uma dor inimaginável.
A história de Kalashnikov é um lembrete arrepiante da natureza dual da inovação. Enquanto procurava proteger o seu país, criou inadvertidamente um legado de instabilidade global. Os seus últimos anos de arrependimento realçam o pesado fardo da responsabilidade que advém da criação de algo que escapa ao controlo do criador e ganha vida própria, deixando um rastro de dor por todo o mundo.
Mikhail Kalashnikov (1919-2013) foi um tenente-general, engenheiro militar e projetista de armas de pequeno porte soviético e russo, mais conhecido por desenvolver o fuzil de assalto AK-47.
Nascido em Kurya, província de Altai, Rússia.
Gravemente ferido na Segunda Guerra Mundial; começa a projetar um novo fuzil.
A Avtomat Kalashnikova modelo 1947 é oficialmente adotada.
Escreve uma carta de penitência à Igreja expressando sua culpa insuportável.
AK-47: Avtomat Kalashnikova 1947. A arma de fogo mais onipresente do mundo.
Metralhadora PK: Uma metralhadora de uso geral amplamente utilizada.
Herói da Federação Russa: O título honorário mais alto da Rússia.
Seu nome tornou-se sinônimo de conflito armado, revolução e terrorismo em todo o mundo.
Morreu de hemorragia gástrica em 23 de dezembro de 2013, em Izhevsk, Rússia.
Sussurrando através do tempo